terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Íris em arco.

O Mundo não é redondo.

Redonda é a bola chutada.

O Mundo é aproximadamente esférico.


O céu também não é azul.

"Azul" é uma palavra.

O céu está alto.


O sol nunca foi ou alguma vez será amarelo.

O sol é um astro:

um astro que brilha.



Mas eu sou amarelo, violeta, azul, verde,

cor-de-laranja, prateado, cinzento,

cor-de-rosa, vermelho ou castanho.


Sou feita de cores que existem,

sou constituída por...

complementada por iluminações coloridas.




O dia caracteriza a cor, a disponibilidade, a paciência.
Define a íris em arco que nos envolve.

Sem qualquer fim determinado

Tudo decorre no seu próprio compasso, no seu próprio passo; tudo enquanto eu vivo e penso, repenso e não ajo.

Tenho um propósito e vou apenas ser a sua assistente assídua. Deixar tudo acontecer, deixar que tudo me ultrapasse e não interferir no decurso natural do que existe.

Vou perguntando que horas são, quanto tempo falta, quando termina... Há-de haver o momento em que as horas são as certas, não há tempo que falta e tudo finalmente acaba.

Há-de chegar ou não. O meu fim esperado pode nem passar-me perto...

sábado, 4 de dezembro de 2010

É o fim.

Já vimos de tudo. Já tentámos para nada. Já fizemos e desfizemos asneiras. Já corremos contra o vento e já nos afundámos em conjunto.

Não dá. Como tudo o que existe, também isto tem uma razão. Demasiado (in)compatíveis, demasiada teimosia, demasiada inexistente paciência.

É o fim. É o Nosso fim, mas, para mim e para ti, é um final aberto...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tempestade

E, mais uma vez, o céu encheu-se de nuvens, o vento assobiou descomunalmente, as árvores fantasmagóricas esbracejaram ao som das folhas arrastadas.

A tempestade era, de cada vez que aparecia, mais intensa, mais robusta e exigente.

Nos tempos em que apenas ameaçava, ainda permitia a inexistência de um bom impermeável acompanhado de um simples chapéu-de-chuva.

O tempo, como Ser independente, seguiu a sua constante contagem, sem olhar a meios. E, lado a lado, andava com o frio, com a incerteza pluvial, com as poças de água que, outrora, seriam apenas mossas e depressões no solo.

O tempo foi sempre responsável, sempre cumpriu a sua escala, nunca faltou uma hora nem chegou alguma vez atrasado. Porém, o Inverno cerrado abriu uma falha no ciclo e corrompeu tudo o que se lhe atravessasse.

A chuva passou a granizo; a aragem metamorfoseou-se em ventania, em vendaval descontrolado; a terra virou lama; o sol escondeu-se; e o horizonte, o horizonte já não era horizonte; era, sim, abismo.


O chapéu não suportava toda a intensidade e arqueava. Arqueava até virar. O casaco deixou de ser "à prova de água" e ensopou-se à primeira gota.

A minha natureza perdeu as estribeiras e já não tem agora qualquer sentido...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um esboço inacabado

Sem ti sou um corpo deambulando na vida;
Sou alma perdida no rio;
Sou projecto de essência;
Sou tentativa fracassada.

Com a tua ausência torno-me rude;
Torno-me escassa;
Torno-me a sonâmbula do mundo que me rodeia.


Contigo passo a existir;
Passo a acreditar;
Passo a ser um alguém com sentido e significado;
Passo a viver.

Sentindo-te comigo, apareço com nitidez;
Apareço como borrão destingido;
Apareço junto de quem me acolhe;
Apareço feliz.


"Semtigo" sou apenas um esboço. Um esboço inacabado e esquecido.

sábado, 6 de novembro de 2010

Conquista.

É necessária a luta, as horas perdidas de esforço, as noites mal passadas, a angústia sofrida, o desgaste psicológico... Tudo é necessário para a conquista, para qualquer tipo de conquista.

Quem conquista, conquista a valer: não conquista por conquistar nem por apenas ter algo conquistado; ter feito uma conquista.

Por conquistarmos o que pretendemos, merecemos consideração, respeito por aquilo que conquistámos.

Já que é feito com intenção (se não fosse, não teria sido, de modo algum, conquistado), devemos prolongar a sensação de conquista, reservar todas essas forças para que, quando mais tarde voltarmos a precisar, possamos reutilizá-las ou até reciclá-las, torná-las substância palpável, indícios das nossas próprias conquistas.

Para que a sintamos a longo prazo, temos de lhe fazer a manutenção: limpar o pó, retirar as teias de aranha, regar-lhe as raízes, arejá-la. Sobretudo, temos de revivê-la, partilhá-la, amá-la...

...pois quem não ama a sua conquista, então não conquistou nada.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sonho sonhado...

Sonho contigo... Em vão... Em vão, talvez não...

...Todas as noites me assombras, me sussurras ao ouvido e pedes para entrar...

...Inconscientemente te dou permissão. Sei que não forças a entrada, tenho completa certeza...


(Ajolaste-te no meu coração há muito tempo e nunca mais estiveste pronto para me abandonar... Nunca me gritaste "Por favor, deixa-me sair!"; tantas coisas dizeste, sempre me fazendo ver que, o que realmente querias, era exactamente o oposto...

Nunca deste credibilidade às tuas palavras nem às tuas ideias de felicidade forçadas... Eu sei-o. Eu conheço-te. Conheço-nos.

Sinto a falta do que, segundo a tua pessoa, perdi para sempre...

Fazes-me falta para construir a minha essência. Necessito-te para escrever o nosso desenvolvimento (já apontei o nosso começo, já delineámos o nosso fim)...

Estás confortável assim. Eu entendo. Estou confortável também (cada vez o estou menos, mas enfim). Mas eu NÃO QUERO estar confortável! Quero viver! Quero amar sem dar importância às montanhas que teremos de escalar, às lágrimas que acabaremos por derramar, às palavras mal-ditas e impensadas, às rasteiras/ratoeiras que encontraremos no caminho, aos gritos que te darei para te acordar, aos incontáveis avisos que terás de me dar para que eu cresça... A tudo aquilo que nos está, neste momento, a impedir de agir correctamente...)


... e então, "sonambuleias-te" no meu repouso, confortas-me e fazes-me feliz...